BIKE, BICICLETA, VALCI BARRETO , LITERATURA

18 de janeiro de 2024

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 MÃE, FILHA, UMA EDUCADORA E EU NA MESA DE LIVROS DE UMA LIVRARIA EM SALVADOR.



Valci barreto, baiano, nascido em Jaguaqaura, mora em Salvador, jornalista, advogado, procurador da Uneb, cicloativista baiano.





Ha´algum tempo eu estava na Livraria Escariz, no Sopping Barra,  olhando os livros sobre a  mesa onde são expostos best sellers, novas ediçoes e  lançamentos.  Ao meu lado estavam mãe e filha, esta em torno de 10 ,11 anos. A filha segurava um livro de muitas páginas, que não  olhei qual título ou autor .  Um  pouco mais afastada, mas na mesma mesa, uma outra senhora também olhava os livros ali expostos e prestava atenção à nossa conversa. 


A garota pedia à mãe:


- compre este livro para mim, quero lê-lo.


 Olhando o volume  do livro, pelo que conheço , possuia em torno de 500 folhas. A mãe perguntava: 


mas filha, você vai ler este livro todo mesmo? escolha outro. 


Mas a garota insistia que queria aquele. A mãe,  simpàticamente olhando para mim, com certo de ar de orgulho da filha demonstrando interesse  pelo livro, tomei coragem e  lhe disse:


 mãe, se o motivo de você não querer presentar sua filha for a grossura do livro, fafaça a vontade dela. Este desejo revela um pendor  para a leitura. E  ela o lerá aos poucos. Se não ler todo , não importa.  


Enquanto eu argumentava com a mãe, e a filha fazia carinha comemorando meu apoio, a senhora que estava ao lado aproximou-se e, dirigindo-se a mim, perguntou: 


O senhor é educador?


Respondi que não; que era leitor. Ela prosseguiu , simpática e educadamente , dirigindo-se para mim e para a mãe da criança:


Eu sou educadora e não recomendo um livro deste para uma criança da idade dela. Ela deve “começar “por outros tipos de livros, livros menores , este são muitas páginas, ela vai cansar…


Eu quase perdia o chão! 


Considerando o “alto grau do papo”, vozes baixas e educadas, a mãe ,ouvindo tudo com atenção e delicadeza, a filha aguardando  , na paz, o desfecho da novela, segurava o livro olhando para nós.


Tentei contra -argumentar com a educadora, que livro não tinha tamanho e ali não estavam livros proibidos.


Educadamente ela se afastou,dirigindo-se  para o fundo da livraria . Mas ficou nos olhando, de onde estava. Imaginando eu , quase certo, que ela voltaria para  nova abordagem de mãe e filha, apenas aguardando a minha saída, 


Eu continuava argumentando com a mãe da criança que minhas filhas, quando na idade da sua garota , liam  livros até mais grossos, e de vários volumes. 


Entendendo que  minha participação estava terminada,  pedi licença,  despedi -me das duas.  Saí daquele espaço  com o som da fala da  educadora  e sua imagem em  minha cabeça , certo de que ela voltaria para continuar com seus conselhos .Quando estava a alguns passos distantes, olhei para traz e não deu outra: a educadora retornara ràpidamente para a banca e foi conversar de novo com a dupla.


Apesar da vontade de voltar e  dizer  que ao meu sentir  a educadora estava deseducando, preferi seguir minha “viagem”. Eu não iria resolver a situação diante de uma “autoridade em educação”. E um pai ,que sempre estava em livrarias e sebos  com filhas, que dava livros e revistinhas infantis, lia histórias para elas, dava coleções de vários volumes para todas, espalhava livros pela casa,  cama, banheiro, uma delas com livro colado ao olho por todo o tempo, não iria  deixar de insistir com a mãe para satisfazer o desejo da filha, nem mesmo diante daquela educadora. Mas preferi seguir meu caminho.



O hábito da leitura, que procurei transmitir para filhas, estas já passaram para seus filhos, meus netos. Igualmente às filhas quando crianças, meus netos hoje passam o dia e parte da noite brincando, estudando e não vão ao banheiro, não sentam à mesa, no sofá, sem um livro ou uma revistinha HQ diante dos olhos. Até o de dois anos, que não sabe ler, é a coisa mais engraçada “lendo “ as figurinhas, passando as folhas como adulto e rindo das imagens como se estivesse entendo toda a história escrita. 


Quando estou com eles, o que mais pedem é para irmos a livrarias, sobretudo ao SEBINHO de Brasilia, onde moram os meus netos da primeira filha. Quando estão em Salvador, não deixamos de visitar livrarias e sebos. 


Tenho muitas fotos e videos das cenas. Os pais não permitem a publicação nas redes, o que sempre respeito. Para facilitar a imaginação dos amigos que lerem este texto, pensem em uma casa com seis netos, todos com livros e revistas em mãos, ou kindle, lendo tudo que tem letra ou imagem, pelos sofás , mesas, banheiros, dormindo com livros ou kindles  em mãos. E´ o que acontece. 


  Há alguns meses, a neta mais velha, 14 anos, ligou para mim para informar: 


Vovô, acabei de ler DAVID COPERFIELD.(entre oitocentas  a mil páginas) 


-Maria , parabéns! leu a edição que tem ai na prateleira da sua mãe? aquela edição bonita?


-Não meu vô, li no kindle, edição em Ingles!!


Ela já leu quase tudo de Jane Austen, também em Ingles.


Milagre, genia? Não, simplesente lê, mesmo antes de saber ler, e nunca faltou livro espalhado pelo chão , em prateleiras baixas, com livros sempre ao alcance das mãos, com pais , avôs e avós que jamais deixariam de dar-lhes  um livro, por ter mais de mil páginas.


Ninguém lê um livro de mil páginas em um dia. Quem é leitor sabe que o mais grosso dos livros pode ser  lido lendo apenas algumas páginas por dia. 


Falei aqui  dos netos que moram em Brasilia.


A neta que mora em Feira de Santana , apesar do “vicio” , controlado pelas mães , em celular, já foi também, como diz Hemingway, fisgada pela leitura, mesmo antes, também, de saber ler.


Como não vou mais encontrar mãe, filha, e educadora desta história, deixo este recado para os amigos que tem filhos e netos e os querem leitores.


Os pais , mesmo antes dos filhos irem para a escola e de conhecerem educadores, devem ser os primeiros estimuladores, orientadores dos seus filhos e netos para a  leitura.


E não vejo método melhor do que espalhar livros pelo chão, mesa, cama,sofás, bancos do carro, por nas malas em viagens, banheiro (só não vale em cima do fogão ,quando aceso, nem embaixo do chuveiro  quando ligado..


A escola, por melhor que seja, por melhores que sejam os educadores , jamais estarão ao redor dos seus filhos para abrir-lhes livros na hora , na quantidade e qualidade  que os de casa podem fazer.


Levei alguns anos para registrar o incômodo que me causou aquela educadora na Escariz, (acho que ainda era Saraiva).


Agora estou aliviado!!!!


Salvador, valci barreto, 17.01.2024


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