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26 de março de 2022

JA ESTOU COM AS CHAVES DA SUA CASA, INCLUSIVE AS DO COFRE, VALCI BARRETO, CRONICAS, LITERATURA, SEGURANÇA PUBLICA, INSEGURANÇA, VIOLENCIA

 

JÁ ESTOU COM AS CHAVES DA SUA CASA, INCLUSIVE AS DO COFRE.

 

Valci Barreto

 

Advogado, Jornalista, nascido em Jaguaquara, mora em Salvador.

 

A partir do final da década de 70 a violência se instalou definitivamente em nosso país e  de lá para cá só tem crescido.

Falida a prestação de serviços públicos básicos como  alimentação, educação, saúde, segurança, quase tudo hoje é privatizado, até mesmo o que é considerado público.

Enquanto a educação, saúde, segurança estatal desce ladeira, as empresas de segurança, educação,  saúde crescem e cobram cada vez mais caros pelos  seus serviços. 

 O estado vai-se afastando de suas funções básicas, cedendo lugar, propositadamente, para as empresas privadas, restando ao povo pagar impostos cada vez  mais caros para sustentar a pesada máquina estatal  sem receber quase nada em troca.

Falando só de Salvador , que é a cidade onde moro, é cada vez mais apertado nosso espaço de viver, sobretudo o espaço público, compreendido ai o transporte público, o lazer de um modo geral, as ruas, jardins, passeios públicos.

A violência praticamente eliminou as condições de uma vida razoavelmente divertida.

CONTINHAS BASICAS, MISTURANDO VIOLENCIA E CUSTO DE VIDA.

 

Cheguei em Salvador no inicio de 1972. O primeiro bairro que morei foi em Nazaré, Rua Jogo do Carneiro,18, fundos.

Moravam na frente do casarão amigos meus de Jequié que vieram antes para a capital baiana e  que foram meus primeiros “guias” em Salvador. Eram  amigos  desde os tempos em que eles moravam em Jequié, onde nasceram.

No primeiro ano que cheguei já fui trabalhar no UNIBANCO e estudar à noite no Colégio Central.

 Nos dias de semana a rotina era: descer a ladeira da Saúde, pegar um pedaço da Baixa do Sapateiro, Tabuão, Comércio casa por não haver tempo suficiente e muitas vezes o dinheiro do almoço era economizado para ajudar nas despesas de casa.   

Não passava fome. O  que eu  ganhava dava pagar almoços e merendas em restaurantes simples , comuns na região, inclusive no bandejão do sesc inaugurado naquele período. Mas muitas vezes trocava o almoço por algum sanduiche em alguma lanchonete , inclusive a do Manolo que funciona até hoje com seus famosos sucos da pura fruta e sanduiche de pernil de porco.

O retorno era subindo elevador Lacerda, ou Plano Gonçalves,  descendo a ladeira da Praça, seguindo pelo terminal de ônibus da Barroquinha, subindo escada que acessa a Rua do Paraiso e alcançando o Colégio Central.

Terminadas as aulas, em torno de 22 horas, ia caminhando para casa, sendo que algumas vezes na semana pegava um ônibus para estudar na casa de conterrâneas que moravam atrás da antiga rodoviária,  próxima ao Mercado da Sete Portas. Nestes dias, que normalmente eram em períodos que antecediam a provas, saia uma duas da manhã da casa das amigas , retornando a pé para  casa. Retornava a pé por não haver mais ônibus nestes horários.  No dia seguinte, 7.30, máximo 8  horas eu estava no ba

Até 1873 foi esta a rotina enquanto morei na Jogo do Carneiro .  De 74 em diante passei a  morar no Garcia, parei de estudar, por razões alheias à minha vontade, mudando minha rotina , banco/casa indo e voltando em ônibus. Esta foi minha rotina até 1975 quando passei no vestibular para Direito.

FINAIS DE SEMANA ERA O PORTO DA BARRA, SEMPRE.

 

Neste  período, 72 a 1975 , nos finais de semana, quando não trabalhávamos no banco em tais dias, meu destino era o Porto da Barra . Ia após o almoço, pois as manhãs eram destinadas aos estudos para enfrentar o vestibular.

 Chegava ao Porto da Barra em torno de 13 horas para bater o frescobol, nadar, caminhar, bater papo. Fiz muitas amizades, muitas que até hoje permanecem.

 

Era comum , mesmo nestes sufocos, trabalhos ,estudos, amigos fazerem festas em suas casas  e para lá íamos em ônibus , carona, mas o retorno quase sempre era  a pé! Tínhamos  um colega de banco que gostava de fazer festas em sua casa a qual  que ficava em uma ribanceira no bairro de Brotas. A chegada à sua casa era engraçada pois para alcançá-la era na base do skin bunda, chovendo ou fazendo sol, levando merendas, bebida , discos e a  “radiola”.  Até hoje rimos quando encontramos amigos e colegas da época.

 Naqueles momentos éramos felizes, afastavam de nós as pressões do trabalho no banco que não eram pequenas, especialmente por quem não podia perder o emprego, como era o meu caso.

Em locais como Brotas, até mesmo quase no final de linha, próximo ao largo  da Cruz da Redenção, voltávamos a  pé , mesmo de madrugada. Muitas vezes a diversão era em Itapuã, Boca do Rio. Neste caso voltavamos somente no dia seguinte, nos primeiros ônibus , quando perdíamos o corujão que circulava à meia noite.

NÃO SE FALAVA EM ASSALTO  .

O roubo, o assaltos, saques, crimes em geral fazem  parte da história da humanidade. Mas à época não se falava em assalto na Bahia. Os crimes que ocupavam as páginas de jornais e as conversas  sobre "perigo das ruas" eram os passionais, brigas em bebedeiras , batedores de carteira sendo que estes atuavam principalmente na região do Pelourinho, Praça da Sé, Mercado Modelo, Ladeira da Praça e ruas no entorno destes espaços.

 

Boca do Rio, Piatã, Barra, Graça, Nazaré ,nenhum desses bairros andávamos assustados , temerosos.  

Os coqueiros de Piatã, Jardim de Alah, eram motéis a céu aberto. Quem andasse por ali nas noites sem chuva, de metro em metro encontrava casais namorando, gemendo, amando, afagando-se, transando sobre a areia e grama. Segurança total para o amor ao ar livre!

Pois bem, do final de 1970 para cá a violência se instalou  e vem crescendo. Foram surgindo quadrilhas com três a cinco componentes, que normalmente eram presos ou mortos em suas guerras.

Tais assaltantes, mesmo já empunhando armas, são santos em comparação aos criminosos atuais.

 

As quadrilhas , quatro , cinco no máximo, normalmente assaltavam casas comerciais, postos de gasolina, dificilmente atacavam alguém na rua ou residências.

 

Foi crescendo o numero de quadrilheiros e o nível de violência. Paralelamente foram surgindo as empresas de segurança. Estas, inicialmente apenas acompanhando o carregamento de dinheiro para bancos, empresas,  um carro forte com dois três componentes portando, no  máximo, um  revolver.

 Mas foi crescendo...crescendo, em número e violência, tudo isso ai....

Bancos, empresas em geral começaram a por correntes, portas giratórias, grades, cancelos, câmeras  e o número de vigilante que era apenas um durante o dia,   passou para ser a noite, o dia, e foi aumentando seu exercito particular: dois, três, quatro, hoje quase um exercito em uma empresa maior, com plantões e revezamento cobrindo  24 horas por dia, um ou um grupo a  cada metro...

 Prédios e casas foram fechando suas janelas, portas, e cercando-as de muros cada vez  mais altos. E as empresas de segurança, antes prestadores de serviço de segurança apenas para empresas , hoje dão segurança a ruas, bairros inteiros. Tudo privado, encarecendo a vida do cidadão que continua pagando altos impostos que deveriam cobrir estas necessidades básicas por parte do Estado.

 

As noites passaram a ser perigosas. Há muito tempo já não mais se trabalha , no Comercio, à noite. E cada dia que passa, inclusive nos dias atuais, vamos testemunhando a diminuição do horário de trabalho , cada dia as pessoas chegando mais tarde ao trabalho e voltado mais cedo para suas casas . Ou seja, todos produzindo menos.

 

Camelôs passaram a correr para suas casas mais e mais cedo e hoje, a partir das 16 horas já desarmam suas barracas para chegarem em casa com risco menor de assaltos e outras violências, inclusive em ônibus.

Nos Shoppings o numero de segurança foi aumentando, o mesmo acontecendo nos mercados  e ruas.

Podemos imaginar o que acontecerá brevemente : em cada casa  termos um segurança na porta, outro na entrada ,outro na cozinha, um na sala, outro  no quarto do casal...

Como os assaltos continuarão, vão aumentando o número de seguranças e, em vez de um só, em cada casa teremos dois, ou mais em cada cômodo da residência.

 

 Não há solução senão esperarmos pelo caos, se a  terceira guerra mundial não chegar antes.

Tirando as possibilidades da guerra RUSSIA X UCRANIA transformar-se na terceira guerra mundial, com o fim dos homens na terra, o caos poderá nos trazer uma guerra civil com muitas matanças , os vencedores ditando suas regras e os historiadores ensinando nas escolas como tudo aconteceu...como fazem hoje para tentarem explicar o fim dos dinossauros na terra e porque a Rússia possui um território tão vasto.

A situação nossa é mais do que  grave . E, apesar de não oferecer para a humanidade o mesmo perigo de uma terceira guerra mundial, estamos matando mais gente na guerra urbana, guerra no transito do que a quantidade de mortos, na guerra RUSSIA X UCRANIA.

 

VIOLENCIA E PREÇO DE UMA SAIDA.

 

Um local em paz, sem violência urbana, caminhar dois três quilômetros para ir a um evento a pé, é moleza para qualquer pessoa saudável que não tenha preguiça de caminhar.

Indo a pé voce economiza  recursos econômicos, faz saúde e poesia pelos caminhos. Contempla a beleza que sempre há pelos caminhos onde não haja violência.

Hoje, impossibilitado de ir a pé até a cem metros de casa, você vai pagar taxi ou gasolina do carro,  estacionamento e ainda dar um trocado para os flanelinhas.  A saída fica cada dia mais cara e perigosa. E quando você soma tudo,  termina optando por ficar em casa  para falar com amigos e fazer tudo que for possível pela net. Inclusive engordando e se deprimindo, sendo as crianças e idosos os mais prejudicados com tudo isso .

Mas, por enquanto, com grana e coragem dá para sair vez em quando, mesmo tendo que calcular tudo. Pelo menos enquanto não tivermos que contratar seguranças privados para dentro de casa.  Mas já estamos bem próximos disso. Já estão  próximos à entrada dos elevadores. E para subirem basta apertar o  andar, acionar a buzina do ap e o morador ouvir a uma voz::

-Alguma alteração ai, patrão? Estou aqui, cuidando da sua segurança....Se precisar de qualquer coisa pode me chamar. Nem se preocupe em abrir a porta,  já estou com as cópias das chaves da sua casa, inclusive as do cofre...”

 

E tudo dentro da lei , criado , mantido, estimulado pelo Estado.

SALVADOR, 26 de março de 2022.

 

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