JÁ ESTOU COM
AS CHAVES DA SUA CASA, INCLUSIVE AS DO COFRE.
Valci
Barreto
Advogado,
Jornalista, nascido em Jaguaquara, mora em Salvador.
A partir do
final da década de 70 a violência se instalou definitivamente em nosso país e de lá para cá só tem crescido.
Falida a
prestação de serviços públicos básicos como
alimentação, educação, saúde, segurança, quase tudo hoje é privatizado,
até mesmo o que é considerado público.
Enquanto a
educação, saúde, segurança estatal desce ladeira, as empresas de segurança,
educação, saúde crescem e cobram cada vez mais caros pelos seus serviços.
O estado vai-se afastando de suas funções
básicas, cedendo lugar, propositadamente, para as empresas privadas, restando
ao povo pagar impostos cada vez mais
caros para sustentar a pesada máquina estatal sem receber quase nada em troca.
Falando só de
Salvador , que é a cidade onde moro, é cada vez mais apertado nosso espaço de
viver, sobretudo o espaço público, compreendido ai o transporte público, o
lazer de um modo geral, as ruas, jardins, passeios públicos.
A violência
praticamente eliminou as condições de uma vida razoavelmente divertida.
CONTINHAS
BASICAS, MISTURANDO VIOLENCIA E CUSTO DE VIDA.
Cheguei em
Salvador no inicio de 1972. O primeiro bairro que morei foi em Nazaré, Rua Jogo
do Carneiro,18, fundos.
Moravam na
frente do casarão amigos meus de Jequié que vieram antes para a capital baiana e que foram meus primeiros “guias” em Salvador.
Eram amigos desde os tempos em que eles moravam em Jequié,
onde nasceram.
No primeiro
ano que cheguei já fui trabalhar no UNIBANCO e estudar à noite no Colégio
Central.
Nos dias de semana a rotina era: descer a
ladeira da Saúde, pegar um pedaço da Baixa do Sapateiro, Tabuão, Comércio casa
por não haver tempo suficiente e muitas vezes o dinheiro do almoço era
economizado para ajudar nas despesas de casa.
Não passava
fome. O que eu ganhava dava pagar almoços e merendas em
restaurantes simples , comuns na região, inclusive no bandejão do sesc inaugurado
naquele período. Mas muitas vezes trocava o almoço por algum sanduiche em
alguma lanchonete , inclusive a do Manolo que funciona até hoje com seus
famosos sucos da pura fruta e sanduiche de pernil de porco.
O retorno
era subindo elevador Lacerda, ou Plano Gonçalves, descendo a ladeira da Praça, seguindo pelo
terminal de ônibus da Barroquinha, subindo escada que acessa a Rua do Paraiso e
alcançando o Colégio Central.
Terminadas
as aulas, em torno de 22 horas, ia caminhando para casa, sendo que algumas
vezes na semana pegava um ônibus para estudar na casa de conterrâneas que
moravam atrás da antiga rodoviária,
próxima ao Mercado da Sete Portas. Nestes dias, que normalmente eram em
períodos que antecediam a provas, saia uma duas da manhã da casa das amigas ,
retornando a pé para casa. Retornava a
pé por não haver mais ônibus nestes horários.
No dia seguinte, 7.30, máximo 8 horas eu estava no ba
Até 1873 foi
esta a rotina enquanto morei na Jogo do Carneiro . De 74 em diante passei a morar no Garcia, parei de estudar, por razões
alheias à minha vontade, mudando minha rotina , banco/casa indo e voltando em
ônibus. Esta foi minha rotina até 1975 quando passei no vestibular para
Direito.
FINAIS DE
SEMANA ERA O PORTO DA BARRA, SEMPRE.
Neste período, 72 a 1975 , nos finais de semana,
quando não trabalhávamos no banco em tais dias, meu destino era o Porto da
Barra . Ia após o almoço, pois as manhãs eram destinadas aos estudos para
enfrentar o vestibular.
Chegava ao Porto da Barra em torno de 13 horas
para bater o frescobol, nadar, caminhar, bater papo. Fiz muitas amizades,
muitas que até hoje permanecem.
Era comum , mesmo nestes sufocos, trabalhos ,estudos, amigos fazerem festas em suas casas e para lá íamos em ônibus , carona, mas o retorno quase sempre era a pé! Tínhamos um colega de banco que gostava de fazer festas em sua casa a qual que ficava em uma ribanceira no bairro de Brotas. A chegada à sua casa era engraçada pois para alcançá-la era na base do skin bunda, chovendo ou fazendo sol, levando merendas, bebida , discos e a “radiola”. Até hoje rimos quando encontramos amigos e colegas da época.
Naqueles momentos éramos felizes, afastavam de nós as
pressões do trabalho no banco que não eram pequenas, especialmente por quem não
podia perder o emprego, como era o meu caso.
Em locais
como Brotas, até mesmo quase no final de linha, próximo ao largo da Cruz da Redenção, voltávamos a pé , mesmo de madrugada. Muitas vezes a
diversão era em Itapuã, Boca do Rio. Neste caso voltavamos somente no dia
seguinte, nos primeiros ônibus , quando perdíamos o corujão que circulava à
meia noite.
NÃO SE
FALAVA EM ASSALTO .
O roubo, o
assaltos, saques, crimes em geral fazem parte da história da humanidade. Mas à época
não se falava em assalto na Bahia. Os crimes que ocupavam as páginas de jornais e as conversas sobre "perigo das ruas" eram os passionais, brigas em bebedeiras , batedores de carteira sendo que
estes atuavam principalmente na região do Pelourinho, Praça da Sé, Mercado
Modelo, Ladeira da Praça e ruas no entorno destes espaços.
Boca do Rio, Piatã, Barra, Graça, Nazaré ,nenhum desses bairros andávamos assustados , temerosos.
Os coqueiros de Piatã, Jardim
de Alah, eram motéis a céu aberto. Quem andasse por ali nas noites sem chuva,
de metro em metro encontrava casais namorando, gemendo, amando, afagando-se, transando sobre a areia e grama. Segurança total para o amor ao ar livre!
Pois bem, do
final de 1970 para cá a violência se instalou e vem crescendo. Foram surgindo quadrilhas com
três a cinco componentes, que normalmente eram presos ou mortos em suas
guerras.
Tais
assaltantes, mesmo já empunhando armas, são santos em comparação aos criminosos
atuais.
As quadrilhas
, quatro , cinco no máximo, normalmente assaltavam casas comerciais, postos de
gasolina, dificilmente atacavam alguém na rua ou residências.
Foi crescendo
o numero de quadrilheiros e o nível de violência. Paralelamente foram surgindo
as empresas de segurança. Estas, inicialmente apenas acompanhando o
carregamento de dinheiro para bancos, empresas, um carro forte com dois três componentes
portando, no máximo, um revolver.
Mas foi crescendo...crescendo, em número e
violência, tudo isso ai....
Bancos,
empresas em geral começaram a por correntes, portas giratórias, grades, cancelos,
câmeras e o número de vigilante que era
apenas um durante o dia, passou para ser a noite, o dia, e foi
aumentando seu exercito particular: dois, três, quatro, hoje quase um exercito
em uma empresa maior, com plantões e revezamento cobrindo 24 horas por dia, um ou um grupo a cada metro...
Prédios e casas foram fechando suas janelas,
portas, e cercando-as de muros cada vez
mais altos. E as empresas de segurança, antes prestadores de serviço de
segurança apenas para empresas , hoje dão segurança a ruas, bairros inteiros.
Tudo privado, encarecendo a vida do cidadão que continua pagando altos impostos
que deveriam cobrir estas necessidades básicas por parte do Estado.
As noites
passaram a ser perigosas. Há muito tempo já não mais se trabalha , no Comercio,
à noite. E cada dia que passa, inclusive nos dias atuais, vamos testemunhando a
diminuição do horário de trabalho , cada dia as pessoas chegando mais tarde ao
trabalho e voltado mais cedo para suas casas . Ou seja, todos produzindo menos.
Camelôs
passaram a correr para suas casas mais e mais cedo e hoje, a partir das 16
horas já desarmam suas barracas para chegarem em casa com risco menor de
assaltos e outras violências, inclusive em ônibus.
Nos Shoppings
o numero de segurança foi aumentando, o mesmo acontecendo nos mercados e ruas.
Podemos
imaginar o que acontecerá brevemente : em cada casa termos um segurança na porta, outro na
entrada ,outro na cozinha, um na sala, outro
no quarto do casal...
Como os
assaltos continuarão, vão aumentando o número de seguranças e, em vez de um só,
em cada casa teremos dois, ou mais em cada cômodo da residência.
Não há solução senão esperarmos pelo caos, se
a terceira guerra mundial não chegar
antes.
Tirando as
possibilidades da guerra RUSSIA X UCRANIA transformar-se na terceira guerra
mundial, com o fim dos homens na terra, o caos poderá nos trazer uma guerra
civil com muitas matanças , os vencedores ditando suas regras e os
historiadores ensinando nas escolas como tudo aconteceu...como fazem hoje para
tentarem explicar o fim dos dinossauros na terra e porque a Rússia possui um
território tão vasto.
A situação
nossa é mais do que grave . E, apesar de
não oferecer para a humanidade o mesmo perigo de uma terceira guerra mundial, estamos
matando mais gente na guerra urbana, guerra no transito do que a quantidade de mortos,
na guerra RUSSIA X UCRANIA.
VIOLENCIA E
PREÇO DE UMA SAIDA.
Um local em
paz, sem violência urbana, caminhar dois três quilômetros para ir a um evento a
pé, é moleza para qualquer pessoa saudável que não tenha preguiça de caminhar.
Indo a pé
voce economiza recursos econômicos, faz saúde
e poesia pelos caminhos. Contempla a beleza que sempre há pelos caminhos onde
não haja violência.
Hoje, impossibilitado
de ir a pé até a cem metros de casa, você vai pagar taxi ou gasolina do carro, estacionamento e ainda dar um trocado para os
flanelinhas. A saída fica cada dia mais
cara e perigosa. E quando você soma tudo,
termina optando por ficar em casa para falar com amigos e fazer tudo que for possível
pela net. Inclusive engordando e se deprimindo, sendo as crianças e idosos os
mais prejudicados com tudo isso .
Mas, por
enquanto, com grana e coragem dá para sair vez em quando, mesmo tendo que
calcular tudo. Pelo menos enquanto não tivermos que contratar seguranças privados para dentro de casa. Mas já estamos bem próximos disso. Já estão próximos à entrada dos elevadores. E para subirem basta apertar
o andar, acionar a buzina do ap e o morador ouvir a uma voz::
-Alguma
alteração ai, patrão? Estou aqui, cuidando da sua segurança....Se precisar de
qualquer coisa pode me chamar. Nem se preocupe em abrir a porta, já estou com as cópias das chaves da sua casa,
inclusive as do cofre...”
E tudo
dentro da lei , criado , mantido, estimulado pelo Estado.
SALVADOR, 26
de março de 2022.
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