SEU JORGE DO PAO
VALC BARRETO
Advogado, blogueiro, cicloativista baiano, nascido em Jaguaquara, mora em Salvador Bahia, do GRUPO CULTURAL AMIGOS DA TOCA.
Morei em minha terra , Jaguaquara, até os final de 71 e
durante todo o tempo que ali vivi, havia um personagem que me encantava: Seu Jorge do Pão, que passava, todos os dias, em frente à minha casa, no Bairro da Muritiba, puxando um jumento, com dois panacuns cheios de pão que ia vendendo pela cidade.
Normalmente ele vinha com um ou dois filhos, vestidos humildemente, movimentos lentos, dele , do jumento e de um ou dois filhos que sempre o acompanhavam. Na maioria das vezes era um só.
Na infância, adolescência, muitas imagens são fixadas para sempre em nossas memorias, umas mais marcantes do que outra.
Como muitos arrependimentos que tenho, um deles foi não ter abordado o seu Jorge para uma conversa , perdendo eu, um grande universo, com certeza, para postar aqui algumas palavras além das imagens puras, cruas, das suas passagens pelo bairro da casca e Muritiba, únicos lugares que o via.
Um dia, ainda criança, passei em frente à casa dele, no bairro da casca, não sei hoje o nome da rua, mas era ao lado da estrada de ferro, nos fundos da casa em que morei até meus 12 anos. Era um horário em que ele estava tirando os banacuns do seu jumento, com igual paciência como caminhava pelas ruas , entregando pães, calçados com sandálias de dedo, de couro, um tipo bem simples que ainda é fabricadas por artesãos por nosso interior.
Há muitos anos fiz um texto, pequeno, simples, à mao, em caderno de escola, sobre a imagem de Seu Jorge, em que pedia à minha conterrânea, desde criança artista do desenho e da pintura, Marilena Petaccia, para pintar seu Jorge.
Mostrei o texto a poucos amigos, nem mesmo a Marilena, pois pensava em melhorá-lo e ser mais contundente no pedido. Queria , confesso agora, comovê-la, com um texto bonitinho , impresso, para entregar também aos amigos, já que escrevi bem antes da net. Alguns amigos gostaram, a exemplo do meu conterrâneo, amigo de todos os dias na infância e edolescencia, agora também escritor, José Acurcio e lembro que ele foi um dos que elogiou. Obvio que não tenho a vidade de achar que o texto era bom. Creio que os elogios vieram de pessoas que tinham o sentimento da imagem que passava em frente das nossas casas em nossa infância e adolescência.
Esta imagem , de pessoas transportando paes,doces , frutas, em jumento eram muito comum e, mesmo em Salvador, em 74, por ai, morando no Garcia, via um senhor vendendo jaca , frutas outras, docs, em um burrinho que muito me lembrava o seu Jorge.
Mas seu Jorge tinha , para mim, uma coisa bem diferente de todos: ele não falava com a boca, não pronunciava palavras enquanto caminhava e fazia a entrega do pão. Ele parava seu jumento em frente das casas de seus fregueses. Como todas as casas ficavam abertas o tempo todo, às vezes até à noite, todos o vinham ou iam para as portas atraídos pelo cheiro do pão, na hora certinha de todos os dias e ele o entregava , de uma forma muito doce, educada, sem pronunciar uma palavra.
Não me impressionava apenas todo o conjunto da imagem de seu Jorge, com seu jumento, panacuns, seu filho lhe auxiliando, segurando ou puxando o jumento. Há uma coisa que só vim a perceber muitos anos depois, quando dele me lembro: O seu silencio.
Sabemos a demanda , as carências, necessidades e tantas imagens e pessoas que devem ser reverenciadas em uma cidade, por menor que seja esta.
Mas ,para toda a minha geração, creio eu, está faltando uma escultura SEU JORGE DO PÃO, em Jaguaquara.
Eu nunca ouvi a voz de SEU JORGE , de seu filho, nem seu jumento relinchando ou reclamando de algo. Porém, até agora, ouço a eloquente mensagem de paz, humildade, quase anônima e silenciosa santidade.
Há uma carência sentida por todo jaguaquarense que é a restauração da sede da colônia italiana, caindo aos pedaços, podendo ser transformada em um atrativo cultural e turístico.
Quando vou a Jaguaquara não deixo de visitar e fotografar a sede da colônia italiana e sonho vê-la vibrando como na minha infância , sonhando, também, em um dia fotografar uma escultura de seu Jorge do Pão em algum lugar por onde ele passava ou onde morou.
Estas obras , como os movimentos e sons silenciosos do seu Jorge do Pão, muitas vezes dão melhores lições do que muitos tratados escritos sobre humanidades.
11 de maio de 2021.
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