BIKE, BICICLETA, VALCI BARRETO , LITERATURA

11 de fevereiro de 2020

VENDEDOR DE AMENDOIIM, VALCI BARRETO, FEIRA DE SANTANA ,


FOTO ILUSTRATIVA.

UM VENDEDOR DE AMENDOIM QUE SÓ POR MILAGRE CONSEGUE VENDER ALGUM....


Valci Barreto.
Advogado, Jornalista , cicloativista baiano,  anda em taxi, uber, bicicleta e adora viajar nos ônibus executivos da SANTANA, para feira de Santana.


Por mais insensível, descuidado, desatento  , malicioso  ,que seja uma  pessoa em relação a  outras pessoas,  animais, plantas, há cenas, fatos, ações que lhe dá uma certa coceira, agonia, esticada de olho, torção de nariz e até aperto de suas próprias mãos na cabeça exclamando: o que é que isto!? Como pode isso acontecer? Como pode alguém fazer tanta  maldade?
Incomodado você pensa nas mais diversas reações para evitar o fato, proteger a vítima, mesmo que você não tenha  tanto espirito de altruísmo.
Há pessoas  que, diante da violência contra alguém indefeso,   reage,  muitas vezes de forma violenta e muitas tragédias tem ocorrido.
Foi o que aconteceu comigo na Rodoviária de Feira de Santana. Antecipo que não se tratou de violências ou maiores “agonias”.
Aos fatos.
Estava em uma escada do fundo da Rodoviária de Feira de Santana, onde há um ponto de taxi e local de parada para quem vai levar ou buscar pessoas que embarcam ou desembarcam. A escada é acesso de entrada e saída de pessoas, de sorte que é fundo em relação à pista onde param os ônibus. Já no passeio , parte baixa da escada, há uma  pequena banca de venda de amendoim.
Minha filha, Mariana Leonesy Barreto, profa de Psicologia da UEFS , mora em  Feira de Santana,. Desde criança que ela  adora amendoim e iria me pegar naquele ponto ,conforme combinamos pelo ZAP. Comprei alguns pacotes de amendoim, sentei na escada , abri meu kindle para continuar minha leitura de As Vinhas da Ira, de Steimbeck.

Não tenho capacidade de ler em meio a muita gente, ainda que não façam barulhos. Meu olhar é sempre atraído pela movimentação das pessoas. Mas reler, que era o caso, que não exigira maiores atenções dava para levar. Como não lia nem estudava para prova, poderia dividir meu olhar para ler o kindle e  “ler” pessoas, movimentos, ouvir algumas palavras, diálogos próximos e buzinas dos taxis e carros particulares que ali estavam.  Em determinado momento ,decidi que o livro poderia ser lido em outro momento e que, a partir de um momento  iria “ler” o que ocorria ao meu redor.
Foi com esta “leitura” que percebi um momento suspeito. Eram alguns taxistas, passantes, que “pescavam” bagos de amendoim daquela banquinha. Não era roubo, não era furto. Era uma espécie de pescaria inocente. Era como se aquela banquinha fosse uma vasilha no quintal do vendedor e aquelas pessoas fossem seus convidadas para algum festejo, tamanha a “inocência” como eram pegos os bacos e a tranquilidade como o vendedor permitia.
Mas, para mim,  ainda mais como inocente observador, aquilo começou a me incomodar. Cometi o pecado de não contar a quantidade nem o tempo em que as mãos apanhavam o amendoim do rapaz. Um deles, taxista, literalmente estava almoçando aquela leguminosa, tamanha a quantidade e tempo que levou comendo e conversando com o próprio vendedor. Maior ainda era  a quantidade dos que ao subir ou descer as escadas apanhavam em passagem pelo taboleiro ,  enchiam a mão sem nem perguntar o preço , muito menos agradecer.

Um dos taxistas papeava com o vendedor sobre os  mais diversos assuntos tipo, futebol, Marilia Mendonça, futebol, assaltos, cornos, modelos de carros, queixas de passageiros chatos,  calor. E, enquanto falava, como se estivesse comendo em festa no seu quintal ,ia ,sem intervalo pondo amendoim em sua boca , mastigando e engolindo . 

Fiquei encabulado e com muita vontade de fazer alguma brincadeira com a situação do tipo: vocês vão falir meu fornecedor de amendoim.....mas não tinha intimidade e as consequências de tais abordagens por aí não tem tido boas consequencias. Preferi entender aquilo como “cultura do lugar”, uma espécie de VALE AMEDOIM, MEU AMENDOIM MINHA VIDA, ESCADA DO PODE LEVAR .

O tempo ia correndo, a cena se repetindo. Aproveitei um pequeno intervalo dado pelos comensais e tomei a iniciativa do papo. Eu “cheio de dedos” , pisando em ovos, com voz baixa e pausada abordei-o:

-Meu amigo estou impressionado como o pessoal pega seu amendoim como se você o distribuísse na base do “pague se quiser”. Você tem algum lucro?

-Pois é minha vida aqui é dar comida a alguns taxistas. Veja aquele que está chegando, ele vai descer do carro dele e vem direto para aqui pegar uma porção....

Não deu outra: um rapaz alto, sem falar nada, sem dar bom dia, boa tarde e com as duas mãos postas no amedoim, encheu amão esquerda e uns quatro a cinco bagos na direita , levou à boca e foi se afastando em direrção ao seu taxi, mastigando, engolindo,  como se ali tivesse parado somente para fazer a "boquinha".  Nem um bom dia  foi  dado na chegada nem um obrigado na saida. Nenhum remorso... Era como se  fosse a sua quota, já separada em algum escaninho com a placa : “ do taxista fulano”. 

Não ,eu não iria dar uma palmada em cada mão que se fazia de bobas, parasitas que atacava a “lavoura” do vendedor. Não tenho vocação para tomar tiro, facada, murro de algum radical , como soe acontecer em situação semelhante por ai, quando alguem  se “envolvere onde não deve”.

Mas , confesso, senti-me na obrigação de ajudar o rapaz. Não sei se vou conseguir, se ele vai precisar.

Afastando as possibilidades de erro de avaliação _ pois poderia ser que aquele amendoim fosse doado pelos mesmos taxistas para tê-lo sempre à sua disposição, dei mais um passo em favor do vendedor.

_Meu amigo , você pode fazer algo sem melindrar , evitar alguma confusão maior.  Se não resolver a parte dos taxistas, pelo menos você resolverá a dos passantes: ponha uma placa bem grande:

-uma lata de cinco, uma lata de dez e, em letras graúdas, placas graúdas com cores fortes:

“CADA bago de amendoim DEZ CENTAVOS, TENHO TROCO”.

Prometi levar a placa na minha próxima ida a FEIRA DE SANTANA  e ele disse que aceitaria o presente.

Em casa, pois até hoje estou obcecado com a cena que não me sai da cabeça ,  ampliei meu “desenho de ajuda”: levarei uma rede para cobrir a banca , que impeça os passantes da “pescada”, e amendoim de plástico , barro, resina, para que todos vejam bem fácil que ali e´um banca de venda e não de distribuição gratuita de alimentos.

Não há almoço de graça. Dizem os economistas. Mas parece que este princípio não se aplica naquela escada da Rodoviária de Feira de Santana.  

A placa e a rede já providenciei. Ficam então, todos avisados: na escada da rodoviária de Feira de Santana, o litro de amendoim continuará o mesmo preço. Mas cada bago custará dez centavos .

Para os taxistas, continuará gratuito. Mas ficam els no dever de cada um  levar 60 quilos de amendoim por semana, a título de doação para obterem os benefícios da merenda . Não vale almoçar   nem levar para casa....

Além da rede, placa , o tema será levado a um famoso diretor e ator teatral que atua em Feira de Santana, que já prometeu escrever, ensaiar e apresentar a pela:

PESCADORES DE AMENDOIM DA ESCADA DA RODOVIARIA DE FEIRA DE SANTANA.

Os personagens terão os mesmos nomes dos taxistas e passantes “pescadores de amendoim”, da Rodoviária de Feira de Santana. E para estes os ingressos serão gratuitos. Garantiu o premiado diretor e autor teatral.

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