UM VENDEDOR
DE AMENDOIM QUE SÓ POR MILAGRE CONSEGUE VENDER ALGUM....
Valci
Barreto.
Advogado,
Jornalista , cicloativista baiano, anda
em taxi, uber, bicicleta e adora viajar nos ônibus executivos da SANTANA, para
feira de Santana.
Por mais
insensível, descuidado, desatento , malicioso ,que seja uma pessoa em
relação a outras pessoas, animais, plantas, há cenas, fatos, ações que lhe
dá uma certa coceira, agonia, esticada de olho, torção de nariz e até aperto de
suas próprias mãos na cabeça exclamando: o que é que isto!? Como pode isso acontecer?
Como pode alguém fazer tanta maldade?
Incomodado
você pensa nas mais diversas reações para evitar o fato, proteger a vítima,
mesmo que você não tenha tanto espirito de altruísmo.
Há pessoas que, diante da violência contra alguém indefeso, reage, muitas
vezes de forma violenta e muitas tragédias tem ocorrido.
Foi o que
aconteceu comigo na Rodoviária de Feira de Santana. Antecipo que não se tratou
de violências ou maiores “agonias”.
Aos fatos.
Estava em
uma escada do fundo da Rodoviária de Feira de Santana, onde há um ponto de taxi
e local de parada para quem vai levar ou buscar pessoas que embarcam ou
desembarcam. A escada é acesso de entrada e saída de pessoas, de sorte que é
fundo em relação à pista onde param os ônibus. Já no passeio , parte baixa da
escada, há uma pequena banca de venda de amendoim.
Minha filha,
Mariana Leonesy Barreto, profa de Psicologia da UEFS , mora em Feira de Santana,. Desde criança que ela adora amendoim e iria me pegar naquele ponto ,conforme combinamos
pelo ZAP. Comprei alguns pacotes de amendoim, sentei na escada , abri meu kindle
para continuar minha leitura de As Vinhas da Ira, de Steimbeck.
Não tenho
capacidade de ler em meio a muita gente, ainda que não façam barulhos. Meu
olhar é sempre atraído pela movimentação das pessoas. Mas reler, que era o
caso, que não exigira maiores atenções dava para levar. Como não lia nem
estudava para prova, poderia dividir meu olhar para ler o kindle e “ler” pessoas, movimentos, ouvir
algumas palavras, diálogos próximos e buzinas dos taxis e carros particulares que ali estavam. Em determinado momento ,decidi que o livro poderia ser lido em outro momento e
que, a partir de um momento iria “ler” o que ocorria ao meu redor.
Foi com esta
“leitura” que percebi um momento suspeito. Eram alguns taxistas, passantes, que
“pescavam” bagos de amendoim daquela banquinha. Não era roubo, não era furto.
Era uma espécie de pescaria inocente. Era como se aquela banquinha fosse uma vasilha
no quintal do vendedor e aquelas pessoas fossem seus convidadas para algum festejo,
tamanha a “inocência” como eram pegos os bacos e a tranquilidade como o
vendedor permitia.
Mas, para
mim, ainda mais como inocente observador, aquilo começou a me incomodar. Cometi
o pecado de não contar a quantidade nem o tempo em que as mãos apanhavam o amendoim
do rapaz. Um deles, taxista, literalmente estava almoçando aquela leguminosa, tamanha a
quantidade e tempo que levou comendo e conversando com o próprio vendedor. Maior ainda era a quantidade dos que ao subir ou descer as escadas apanhavam em passagem pelo taboleiro , enchiam a mão sem nem perguntar o preço , muito menos agradecer.
Um dos
taxistas papeava com o vendedor sobre os mais diversos assuntos tipo, futebol, Marilia
Mendonça, futebol, assaltos, cornos, modelos de carros, queixas de passageiros
chatos, calor. E, enquanto falava, como
se estivesse comendo em festa no seu quintal ,ia ,sem intervalo pondo amendoim
em sua boca , mastigando e engolindo .
Fiquei
encabulado e com muita vontade de fazer alguma brincadeira com a situação do
tipo: vocês vão falir meu fornecedor de amendoim.....mas não tinha intimidade e
as consequências de tais abordagens por aí não tem tido boas consequencias. Preferi entender
aquilo como “cultura do lugar”, uma espécie de VALE AMEDOIM, MEU AMENDOIM MINHA
VIDA, ESCADA DO PODE LEVAR .
O tempo ia
correndo, a cena se repetindo. Aproveitei um pequeno intervalo dado pelos
comensais e tomei a iniciativa do papo. Eu “cheio de dedos” , pisando em ovos, com
voz baixa e pausada abordei-o:
-Meu amigo
estou impressionado como o pessoal pega seu amendoim como se você o
distribuísse na base do “pague se quiser”. Você tem algum lucro?
-Pois é
minha vida aqui é dar comida a alguns taxistas. Veja aquele que está chegando,
ele vai descer do carro dele e vem direto para aqui pegar uma porção....
Não deu
outra: um rapaz alto, sem falar nada, sem dar bom dia, boa tarde e com as duas mãos postas no amedoim, encheu amão esquerda e uns quatro a cinco bagos na direita , levou à boca e foi se afastando em direrção ao seu taxi, mastigando, engolindo, como se ali tivesse parado somente para fazer a "boquinha". Nem um bom dia foi dado na chegada nem um obrigado na saida. Nenhum remorso... Era como se fosse a
sua quota, já separada em algum escaninho com a placa : “ do taxista fulano”.
Não ,eu não
iria dar uma palmada em cada mão que se fazia de bobas, parasitas que atacava a
“lavoura” do vendedor. Não tenho vocação para tomar tiro, facada, murro de
algum radical , como soe acontecer em situação semelhante por ai, quando alguem se “envolvere
onde não deve”.
Mas ,
confesso, senti-me na obrigação de ajudar o rapaz. Não sei se vou conseguir, se
ele vai precisar.
Afastando as
possibilidades de erro de avaliação _ pois poderia ser que aquele amendoim
fosse doado pelos mesmos taxistas para tê-lo sempre à sua disposição, dei mais
um passo em favor do vendedor.
_Meu amigo ,
você pode fazer algo sem melindrar , evitar alguma confusão maior. Se não resolver a parte dos taxistas, pelo
menos você resolverá a dos passantes: ponha uma placa bem grande:
-uma lata de
cinco, uma lata de dez e, em letras graúdas, placas graúdas com cores fortes:
“CADA bago
de amendoim DEZ CENTAVOS, TENHO TROCO”.
Prometi
levar a placa na minha próxima ida a FEIRA DE SANTANA e ele disse que aceitaria o presente.
Em casa,
pois até hoje estou obcecado com a cena que não me sai da cabeça , ampliei meu “desenho de ajuda”: levarei uma
rede para cobrir a banca , que impeça os passantes da “pescada”, e amendoim de
plástico , barro, resina, para que todos vejam bem fácil que ali e´um banca de
venda e não de distribuição gratuita de alimentos.
Não há
almoço de graça. Dizem os economistas. Mas parece que este princípio não se
aplica naquela escada da Rodoviária de Feira de Santana.
A placa e a rede já providenciei. Ficam então, todos avisados: na escada da rodoviária de Feira de Santana, o litro de amendoim continuará o mesmo preço. Mas cada bago custará dez centavos .
A placa e a rede já providenciei. Ficam então, todos avisados: na escada da rodoviária de Feira de Santana, o litro de amendoim continuará o mesmo preço. Mas cada bago custará dez centavos .
Para os
taxistas, continuará gratuito. Mas ficam els no dever de cada um levar 60 quilos de amendoim por semana, a título
de doação para obterem os benefícios da merenda . Não vale almoçar nem
levar para casa....
Além da rede,
placa , o tema será levado a um famoso diretor e ator teatral que atua em Feira de Santana, que já prometeu escrever, ensaiar e apresentar a pela:
PESCADORES
DE AMENDOIM DA ESCADA DA RODOVIARIA DE FEIRA DE SANTANA.
Os personagens
terão os mesmos nomes dos taxistas e passantes “pescadores de amendoim”, da Rodoviária
de Feira de Santana. E para estes os ingressos serão gratuitos. Garantiu o premiado diretor e autor teatral.

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