CAPITULOS I E II.
valci barreto
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O homem normal tem os sentidos que se conhece. Mas aqui falarei apenas da minha minha audição
musical, para, quem sabe, ajudar pessoas , especialmente pais, mães, parentes a
estimularem seus filhos a se tornarem
bons ouvintes, cantarem e tocarem algum instrumento, ainda que apenas para
dentro de casa.
Ajudar, também, pessoas que, com vontade, não tenham vergonha de
começaram a brincadeira “com idade avançada”, como é o meu caso.
Nada de científico.
Muitos dizem:
- “não tenho ouvido para música, não sei entender as músicas de João
Gilberto, o jazz não entra em minha cabeça e música clássica, é coisa de
intelectual . (popularmente, chamam de música clássica toda música tocadas em
orquestras. Mas, tecnicamente, música clássica é a produzida em um período histórico
da música, 1700, 1800 por ai.)
Não sou músico. Não estudo música. Tomo umas aulas de violão,
como diversão, com minha pró LUMA PINTO
OLIVEÍRA, o que não se pode chamar de ESTUDOS DE MUSICA. No meu caso é uma boa
brincadeira, um hobby.
A pró é competente, estudiosa, talentosa, mas eu é que peço:
-calma pró, quero só esta "merenda" hoje : "
basta o desenho do Dó maior, os tres pontinhos...o som da palavra, Dó, deixa
para a próxima aula. "
Ela entende e, mesmo com aquela carinha de “pro´ bondosa” que acha que o aluno está querendo "enrrolar a
pró" , por não ter feito a lição de casa, aceita meu pedido, respeitando
meu ritmo lento de aprendizado.
Sempre gostei de cantar , mesmo sem saber . Aprendia as letras
ouvindo poucas vezes. Mas totalmente sem contagem de tempo. E EU NEM SABIA O
QUE ERA O TEMPO NA MUSICA. EU PENSAVA ,que bastava cantar a letra. Quando eu
cantava Vinicius, eu mais recitava do que cantava... Depois das aulas da minha
pró Luma Pinto, estou me dedicando a esta parte de ritmo,
tempo, e acho que tenho melhorado. Ela diz que estou melhorando muito. As
palavras são dela. Mas acredito cegamente no que ela me diz.
Porém, mesmo sem dividir o tempo, cantava em fundo de sala de
aula e nunca uma viagem , passeio em grupos de amigos faltou o "meu
canto".
Em 1971 ou 1972, participei de um passeio com minha turma do
curso científico do meu Colégio Taylor Egydio, de Jaguaquara a Recife. Eu e meu
querido amigo JAIRO SÁ, servidor da CAR, professor universitário estadual,
Agronomo, fomos e voltamos o passeio todo cantando. Sabíamos muitas letras de música
e ainda improvisávamos versos ,feitos na
hora, o que antes nunca fizera e que nasciam ali, com rimas fáceis, tipo feijão
com limão.
Foi o maior show, que fiz , que até hoje.
Acho que alegramos o passeio. A final, a turma participava , elogiava, se era
só para nos agradar não sei. Respeitávamos o sono da maioria.
Sei que amei termos
cantando em todo o passeio naquele clima
de “embaixadas”, como chamávamos à ´´época, estes passeios.
Em Jaguaquara, participara, como acompanhante, de todas as serenatas
de que tinha conhecimento, inclusive de cantores que se apresentavam no Cine
Bahia e que depois iam para algum barzinho da cidade, a exemplo de OSVADLO
FAHEL.
Dois amigos da minha época faziam serenatas quase todos os dias
que não choviam.
A dupla fez história na cidade, na minha época: VALFREDINHO E NIVINHO, o primeiro cantava, o
segundo tocava. Ambos já faleceram.
Mas Valfredinho não deixava quase ninguém cantar. Abria uma
exceção quando o grupo aumentava e todos terminavam cantando juntos.
Vários anos apaixonado
por uma amiga nossa, que os pais não queriam o namoro, amanheciam o dia cantando
todas de Roberto Carlos. Entendíamos o coração e as exigências do amigo, a
estrela das serenatas da época.
Nivinho queria todos cantando, mas era solidário ao cantor
apaixonado, seu parceiro de todos os momentos.
Ou seja, eu não cantava,
mas ouvia, acompanhava, respeitava o canto daquela dupla de "profissionais".
Em final de 1980 fui morar em Barreiras, trabalhar para o
INSTITUTO DE TERRAS DA BAHIA, intermediar conflitos de terras tão presentes à
época.
Fomos em tres, em uma
caminhonete: Eu, Jussara Ladeia e Celio Urani.
Eu e Jussara, amiga
querida , colega advogada, professora, durante toda a viagem íamos falando de
literatura e cantando, quase tudo de Luiz Gonzaga, o nosso forte. Mas Valdick
jamais ficaria de fora....(são conterrâneos).
Ambos gostamos de música e literatura( saudade dos dois, Celio
faleceu e Jussara nunca mais a vi. Vou procurá-la hoje no face..)
Na minha Rua da Muritiba, em nossa terra, JAGUAQUARA, eu e meu
primo Gildasio Barreto, atualmente morador no Entrocamento daquela cidade, km
43 da Rio Bahia, proprietário de uma padaria, saíamos quase todas as noites, após
deveres escolares e o jogo de bilhar, no
Bar de Seu Agapito, percorrendo, cantando, no bairro da Muritiba, músicas de Valdick, Nelson Gonçalves, Anisio Silva,
Orlando Dias, Ataulfo
Alves, Teixeirinha , Caetano Veloso, João Gilberto, Vinicius, Noel Rosa, Agnaldo Timóteo, Roberto
Carlos , Silvinho , Vandeley Cardoso, muita gente.... às vezes eramos acompanhados
por alguns amigos após seus goles no mesmo, sendo a de Valdikc Soriano , “bebo
neste copo o fracasso, estou bebendo pelo amor de uma mulher” .
Até hoje não sei de qual daqueles cantores gosto mais.
Cantávamos as versões de músicas inglesas, francesas, que no
fundo do disco estava escrito : vERSÃO, rEGINALDo ROSSI, que é o mesmo rei do
brega da década de 80-90, autor que gravou o grande sucesso GARÇOM.
Ou seja, cantava, adorava cantar , adoro cantar , sabendo só as
letras, nada de ritmo!! a voz? nem quero saber se agrada alguém...
Na minha vida de cantor tive alguns prêmios "prêmios" :
na intimidade de algumas amigas, cantava baixinho nos seus ouvidos: “vem, meu
menino vadio, vem sem mentir pra você” (Chico Buarque) ....e tinha o aplauso
verbal, às vezes "compartilhado" para a "vizinhança".
"Ele canta tão
lindo"..... Podia não ser verdade, mas eu acreditava e continuo
acreditando que estava agradando...(Narciso acha feio, o que não é espelho),
Caetano Veloso.
Na aula de música , no meu segundo ou terceiro colegial, na
sala, os alunos foram convocados para cantar alguma música. A minha foi a de Chico
e cantei baixinho e bem dengoso, de proposito:
“você era a mais bonita das cabrochas desta ala “ (QUEM TI VIU,QUEM
TI VÊ).
Terminada minha apresentação, uma colega , que ela me perdõe não
lembro o nome pois era quetinha... falou do meio da sala: Valci canta tão
bonitinho!.
Confesso, foi como receber aplausos de um Macaranã lotado! É que
não esperava , jamais,um bonitinho, também tão dengoso como elogio.
Mas tenho meu lado triste de cantor.
Em alguns ambientes, fui cantar músicas como: “um cantinho um
violão, este amor uma canção”... e recebi "coices coletivo":
"pára esta musica triste"....."música de enterro" .
Os mesmos coices já recebi quando tentei cantar, em alguns ambientes, Love Me Tender, baixinho,
com publico de cinco pessoas, número médio
de público das minhas “apresentações......-“Isso
é música ou reza?”” Isso aqui é igreja?” (feliz quem, desejando ouvir e cantar
bem, escuta cantigos de igrejas! São as grandes escolas!!)
Um dia, estava em aniversário de um amigo , alguém com um
violão, aproveitei aquele intervalo que nem mesmo o tocador sabe o que vai querer
tocar ou cantar, e comecei/ “
Disse um campônio à sua amada , minha idolatrada....”v que faz
parte da minha infância, ouvindo-a nas peças trágicas apresentadas nos circos
que passavam em minha cidade.
Neste dia, mal esbocei a primeira frase, vieram coices de todo
lado...
Só não me jogaram cadeiras porque o músico gritou: “pára, pára,
não joguem tortas , nem pedras em Valci.. É uma linda canção, que teve uma
interpretação genial de Caetano Veloso.....”
O dono do violão e a citação do nome de Caetano Veloso salvou-me
das possíveis cadeiradas em minha cabeça.... Também, como sempre faço,
recolhi-me à minha insignificância. De certa forma, já estava acostumado,
quando tentava cantar, em alguns ambientes ,
“a felicidade é como uma gota de orvalho numa pétala de flor voa
tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar’.
Entendo, de há muito, que ninguém é obrigado a gostar de muitas
músicas. Que se pode rejeitar Caetano, Gil, João Gilberto. Muito menos alguém
tem a obrigação de escutar LOVE-ME TENDER, em inglês, ainda mais por quem não
sabe nem Portugues como se deve saber...
Que há pessoas para quem , em certos momentos, o que deve ser
cantado é o “senta, levanta, mexe ...”
Em certos momentos e ambientes, também acho que cabe mais este estilo. Nada
contra.
Porém, se alguém ,em meio a uma brincadeira de família , de
amigos próximos, pouca gente, se alguém vai tocar ou cantar uma música vai tocar, ou cantar alguma “musica ruim”, “musica triste”, “musica
de velório”, “musica de igreja, não precisa dar pedrada no “artista”.
Óbvio que, da minha parte, entendo a todos. Sempre os entendi,
pois li a Bíblia bem cedo, assisti na infância a muitos filmes sobre a morte de
Cristo, estudei em colégio de religiosos
e a frase me ficou:
“PERDOAI-LHES SENHOR, ELES NÃO SABEM O QUE FAZEM”,.
E ninguém é obrigado a ouvir ninguém, muito menos a quem quer
cantar sem saber, que é o meu caso.
O mais triste que acho ,de tudo, são pais , mães, avós que, ao
ouvir um filho cantando, vai gritando :
PARA DE CANTAR, ESTÁ ME ATRAPALHANDO, VOCE NÃO SABE CANTAR. VOCE
É DESAFINADO!! Não imaginam os males que estão fazendo. Não a um futuro artista
do canto, pois nem todos o serão ou quererão. Não imaginam que estão bloqueando
a educação em vários sentidos, sobretudo criando a incapacidade de ouvir, de
falar, de cantar, de educar o ouvido, de desenvolver a atenção.
Este pecado jamais cometeria. Muito pelo contrário. Cante mais,
peço eu, sempre e sempre.
O músico e a citação do nome de Caetano Veloso salvaram-me das
tortas , cadeiradas, água fervendo , no citado episódio da minha carreira artística.
Óbvio que, em nenhuma
destas situações, insisti. Parei ali, recolhendo-me sempre, mas insistindo em
outros momentos e locais, com a mesma força de Nelson Gonçalves que foi
rejeitado em quase todos os locais que tentou fazer teste para cantor. Até
empurrão e tapas tomou de gravadoras....
Estou melhor que Nelson nesta parte. Não fui ainda tão humilhado...
Mas não precisa dar coice, né gente? Basta pedir ao
artista: Canta não, toca não, canta
outra, não canta nada...mas vamos fazer no dengo, na suavidade, na doçura vocal
de João Gilberto...ou não?
A parte boa, também, na minha carreira é que tenho , contados
nos dedos, hoje, um fã clube de mais ou menos 15 pessoas, cujos nomes serão revelados no final do relato, se eles me
autorizarem . São pessoas que, não só me escutam, inclusive ao telefone, como
pedem musica!!..
--continua nos próximos capítulos e personagem reais aparecerão,
se me autorizarem.
EU E A MUSICA, CAPITULO DOIS.
Quem se lembra dos primeiros sons, das primeiras músicas ouvidas.
Difícil . Impossível, até.
Nasci em 1951, 2 de maio.
Não tínhamos rádio em casa. Os sons primeiros da minha infância,
que lembro, são evidentemente dos passarinhos. Minha cidade não tem rios, tem
riachos. Sons inesquecíveis são muitos: a chuva no telhado, a fonte de agua
doce, com uma bica , formada de madeira, por onde escorria e batia a agua na minúscula
fonte onde meus pais e moradores da Fazenda Agua Doce, pegavam agua para beber
e onde lavavam roupas; chocalhos em animais, enxadas, pisadas de cavalos, de pés de cavalos, bois, burros, cantorias em
enterros (meu pai fazia caixões, mas não cobrava, então, e nossa casa era uma uma
passagem para cemitério do Pé de Serra ,
Alto da Serra, zona rural de Jaguaquara, pequeno povoado. Os cantos tristes dos
sepultamentos são inesquecíveis.
Nesta fase da minha infância, o som mais belo, de gente, que eu escutava, era o que vinha dos
trabalhadores, de uma casa de café, que ficava alguns metros,
talvez duzentos metros, da minha casa; os cânticos das missas, procissões,
ternos de reis, uma vez por ano e bumba meu boi, mais frequente este quando vim
morar na cidade. Eu dormia ouvindo
aquele som de trabalhadores batendo feijão e pilando café. Este som e momento não caberia em um livro, fosse
eu escrevê-lo.-Quando li os livros de José Lins do Rego, vi neles , em maior
dimensão, porque grandes engenhos de açúcar, uma das razões da minha paixão
pelo escritor paraibano.
Em frente à minha casa, passavam grandes boiadas que vinham de
Minas para o Porto de São Roque, segundo lembro das conversas dos boiadeiros.
Os aboios, sons das pisadas das boiadas, cânticos dos vaqueiros, sons de copos
de ferros, de alumínio, de gritos, berros são também lembranças sonoras até
meus 8 anos.
_meu tempo é contado antes de iniciar meus estudos oficiais. A
partir daí minhas lembranças de tempo estão associadas a cada curso que fiz nas
escolas pelas quais passei.
SONS DE FACÕES , SERROTES, ENXADAS, SAPOS, GRILOS, GOTEIRAS D
AGUA, FACÕES CORTANDO MADEIRAS. PROPAGANDAS EM CARROS EM CAMPANHAS ELEITORAIS,
LUIZ GONZAGA EM RADIOS DISTANTES DA MINHA CASA. FLAUTAS E CANTICOS DE TERNOS DE
REIS, ORAÇÕES E SINDOS DA IGREJA CATÓLICA QUE SÓ OUVIA QUANDO IA À MISSAS E
FESTAS RELIGIOSAS PORQUE A DISTANCIA NÃO
PERMITIA A CHEGADA DO SOM ATÉ `A NOSSA CASA.
Até os 8 anos eram estes os sons que mais ouvia.
Uma flauta de taboca e cera
de abelha, esquecida em casa por algum grupo de reis, e o primeiro violão que meu
pai comprou, não para qualquer dos filhos mas como “rolo”, “troca” e que me fez,
que eu me lembre, dormir de dia pela
primeira vez.
Continua nos próximos capítulos.
Não se preocupem, chegarei a Joao Gilberto.

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