BIKE, BICICLETA, VALCI BARRETO , LITERATURA

18 de março de 2019

MEU CELULAR MINHA VIDA

O CELULAR
Valci Barreto
O celular tocou. Pelo sinal, era alguma mensagem do face, ou zap. Meio sonolento, meio acordado, virou-se Joao para o lado e viu a mensagem: Antonio acabou de postar uma foto...
Ainda meio sonoleto, abriu o aplicativo e lá estava uma foto linda, de um remanescente do Saveiro, navegando entre Salvador e Maragogipinho, conforme vira nos posts anteriores dos amigos que realizava, pela segunda vez ,um passseio nesta antiga embarcação, sendo o primeiro para Cachoeira.
A pouca luminosidade do quarto obrigou-o a acender a luz para ver melhor as fotos.
Porque não fui? pensou.
Levantou, levando o celular para o banheiro. Como de costume, banho, escovações, uso do numero 1 e dois, sem tirar o celular das mãos e dos olhos, exceto embaixo do banheiro, já que o celular não é à prova d' agua.
Após, abriu o guarda roupa vestiu-se , dirigindo-se à mesa para ver o que lhe trazia o dia pelo celular: agendas, leitura das noticias, mensagens do whats upp, muitas fotos lindas, videos engraçados, sérios, notícias...
Não esperou o café ser posto à mesa, a pouquinha fome matinal, leva-o à fruteira e, sem desgrudar do celular, retorna à mesa, abre as redes que lhe interessam , jornais videos abrindo mensagem de amigos, de clientes, avisos de shows, eventos....
Olha o relógio e percebe que já se foram duas horas e ele nem retomou aos livros que deixara , na noite anterior, para a leitura matinal que sempre fez, de literatura, antes de seguir para o trabalho de professor em uma escola estadual da periferia de Salvador.
Esposa, filhas empregada de meio turno,sem a qual não pode viver para não ter que lavar pratos , roupas em vez de ler , vão aos poucos movimentando a casa e começando as falas, os barulhos a buzinadas de carros nas ruas.
Se não fosse o celular , que posso ir lendo no ônibus até chegar à escola, mesmo com riscos de assaltos, e o livro aberto para o caso de acabar a bateria, eu não sei se aguentaria viver... O celular é o meu mundo, pensa. O mais que se dane. Fale mal quem quiser.
Após as tarefas, arrumações, caçar meia , sapato, pegar material ,pôr na mochila,...lá vai joão , celular ligado, caminhando da Rua Jogo do Carneiro, onde mora, até o jardim de Nazaré onde pegará o onibus que o conduzirá a um outro ponto que finalmente o levará até a escola onde ensina.
No onibus, aquela confusão que, se de algum modo o incomoda na leitura, por outro contemporiza a barulheira por conta do miserê do nosso povo , por entender a dificuldade para sobreviver vendendo balas, picolé, canetas....
De assalto ,já não tem mais tanto medo. Entendeu que é só entrega-lo ao ladrão mais próximo , comprar outro e pronto. Já perdeu a conta dos que foram deixados com os os assaltantes durante seus 15 anos de ensino, gastando entre duas a tres horas por dia dentro de um ônibus.(jogando a vida no lixo, pensa João, aliviado por poder fazer mil coisas no celular.
Chega ao ponto final, desce, sem soltar o celular. Cumprimenta alunos, colegas, funcionários, olhando-os um segundo e voltando a vista para o celular. A final, as notícias de hoje estão quantes: assassinatos, morte de crianças, mulher assassinada por marido, namorado; terrorismo matando gente pelo mundo...
Iniciadas as aulas, de literatura, dirige-se aos alunos:
hoje basta fazerem uma redação. O tema é livre, mas quem fizer sobre assalto a ônibus , bem feita, terá um ponto a mais...
Não se trata de terorismo, de por os alunos para conviver com temas ligados à violencia. Isto eles já convivem. Quero que eles escrevam sobre a realidade deles. É como ensinam os grandes mestres da literatura: escrevam sobre suas experiencias, suas vivencias, sua casa, seu bairro, sua cidade, "seu mundo".
E este é o mundo destas crianças. E O meu mundo é o meu celular....pensa o professor que, ganhando pouco, viaja pela nova literatura, pelo novo mundo que lhe é trazido para a palma da mão, sem precisar carregar a ENCICLOPEDIA BRITHANICA, um dos seus sonhos de adolescencia, nunca realizado, e que hoje está na palma da sua mão...
É assim todos os dias de semana de João.
Aos domingos, feriados, consegue fazer a sua leitura mais tranquilo, revesando leitura em seu aplicativo do celular, alguns livros impressos e, rarissimas vezes , um jornal impresso, cada vez com menos conteudo que lhe interessa(virou anúncio de eventos e de futebol, pensa) e muito caro!
Faz o mesmo com o cinema: não vai mais! Caro, longe de casa e arriscado : andar a pé é bem mais perigoso do que em ônibus.
E pensa João, temos , hoje, que escolher o menos arriscado, o menos perigoso. Em casa é menos perigoso. Assisto meus filmes no YOU TUBE PREMIUM, comendo banana de dois reais a duzia, _ metade de uma jaca por dois reais, bebendo água filtrada da torneira, do que ir ao cinema com pipoca de 30,00, coca cola de 10, sem contar estacionamento, já que, se for, irá a pé .
Ficou de fora o preço do ingresso do cinema para não aumentar o sentimento de pobreza, para alguns, de lei da sobrevivencia, para João.
Meu celular, minha vida, concui João ao ir deitar ao lado da esposa que nem olha para ele, grudada que está na TV!

Nenhum comentário: