LA CAMPANA, FAMILIA APRILE , FEIRA
DE SANTANA
-publicado na folha do recôncavo em 2011.
Valci Barreto
www.folhadoreconcavo.com.br
Após a Segunda Guerra Mundial, 41 famílias de imigrantes
italianos instalaram-se em Jaguaquara, levando para aquela cidade do Vale do
Jiquiriçá, na Bahia, a cultura de verduras , hortaliças, notadamente a do
tomate que , em certa época , antes da concorrência dos fornecedores do sul do
pais, Vale do São Francisco e do próprio recôncavo baiano, chegou a representar
mais de setenta por cento do abastecimento de Salvador.
Entre os imigrantes estava a família Aprile. E nesta, um
garoto com 17 anos, hoje um senhor de mais de 70, Silvano Aprile, que trabalhou
com agricultura; caminhão; mercancia; madeira e montou uma oficina no
Entrocamanento de Jaguaquara, km 43 da Br 116, onde se tornou um reconhecido
mecânico de automóvel.
Imaginando, criando, produzindo, lutando pela sobrevivência,
executando os mais variados ofícios, mesmo com limitações de estudos, comuns
aos imigrantes de então, o senhor Silvano veio a implantar, no mesmo
Entrocamento, o primeiro restaurante de comida italiana da região, o Abruzzi,
em 1960 . Daquela localidade e época tem início uma parte da história do Filé à
Parmegiana como o conhecemos na Bahia.
Não se sabe a origem desta maravilhosa comida. Muitos, por
conta do seu nome, associam-na a Parma , na Itália, tese contestada por
historiadores que negam ter ele existido naquele pais, afirmando que seu nome é
também relacionado a Milão, portando o nome de "bife à milanesa"
igualmente ali desconhecido.
Seja qual for a origem da deliciosa comida, muito tem para contar
sobre ela o senhor Aprile, que mantém, juntamente com sua filha Ana, um
restaurante de comida italiana em Feira de Santana, o LÁ CAMPANA.
Há uns dois anos, sem maiores comentários, sem qualquer
pretensão, senão matar a fome, levou-me um amigo para almoçarmos naquela casa
de pasto, quando passávamos por Feira, em direção a Itaberaba. Pedimos o Filé à
Parmegiana que gravou em mim um sabor que desejei vê-lo repetido em minhas
papilas gustativas em uma outra oportunidade.
Hoje estive em Feira e um dos meus programas seria almoçar
naquela casa. Logo ao entrar, recebeu-me o seu proprietário, senhor Aprile que,
atendendo às minhas primeiras indagações sobre a origem da sua pessoa,
perguntou-me se queria saber da italiana ou da brasileira. Respondi-lhe que me
falasse das duas. Irradiando simpatia, percebeu a iluminação também em meu
semblante ao revelar-me seu conterrâneo, na parte brasileira; enquanto a outra
vinha de Pescara, onde nasceu, cujo ponto me indica, orgulhosamente, em um mapa
fixado como decoração em uma das paredes do La Campana.
O doce nome da minha terra, Jaguaquara, e da colônia
italiana da minha infância, pronunciadas naquele momento, não deram mais
descanso para o senhor Aprile. “obriguei-o" a contar-me um pouco da sua
história, o que fez com todo gosto, enquanto o escutava , fascinado, por quase duas horas.
Nascido em Pescara, de família muito pobre, talentoso para o
comércio, saia pelo interior daquela região pesqueira italiana, entrando em
fazendas, sítios , povoados, casas de pescadores, comprando , vendendo, trocando
ovos, temperos, galinhas, carnes, mascateando, enfim ; e tudo fazendo em
bicicleta. Minha cabeça voava para a Itália, passando nela um filme em que seu
Aprile se agigantava como artista maior, pedalando uma bicicleta enferrujada;
pneus gastos; sem marcha, daquelas que estamos acostumados a ver em filmes
clássicos italianos, cheia de tralhas no bagageiro, quadro e guidom.
Já fascinado com os seus depoimentos, pedi-lhe que contasse
a história das bicicletas em sua vida, entusiasmando-o quando lhe falei dos
meus passeios pelas ruas de Salvador, transportado-me neste fascinante condutor
de pessoas e de emoções.
Fazendo eu pequenas anotações da sua fala, perguntou-me,
gentilmente, o motivo delas, e se era escritor. Respondi-lhe que não, que
visavam elas informar aos amigos
ciclistas da existência , história e endereço do seu restaurante . Após calculada pausa para ouvir meu gosto pelas
magrelas, sequenciou a fala, surpreendendo-me com cada frase, olhar, elegância
nos gestos e doçura de quem bem domina a arte de contar a sua própria história,
acrescentando, entusiasmado:
‘Eu e um amigo éramos invencíveis em corridas de bicicletas
na região de Pescara. À época, os grandes campeões eram Cope e Bartali.(ícones
do ciclismo mundial), com mais idade do que nós, e já profissionais. Estávamos
nos preparando para substituí-los nas grandes provas da Europa, começando pela
Itália, sonho com grandes possibilidades de se tornarem realidade ; pois , em nossa região, éramos
imbatíveis.” Acrescentou convicto , seguro : “Tínhamos tudo para isto, mesmo
porque pedalar fazia parte do meu ofício diário, subindo e descendo morros da
zona rural de Pescara, com a bicicleta carregada de todo tipo de
mercadoria."
A guerra, a imigração, interrompeu este caminho que
trilharia o senhor Aprile. Mas ficou mais esta história para ser contada.
Envolvia-me cada vez mais , enquanto Victor e Ró , deliciavam-se , quase mergulhados em dois pratos pedidos , um
dos quais o famoso filé.
Apesar do sabor, da certeza da delícia que abastecia os
dois, alimentava-me com a história do senhor Aprile. Perguntando porque ele não
a escrevia , disse-me que já está fazendo isto. Porém, para assim se expressar,
houve um certo ritual, enriquecedor da forma de contar, dizendo que, estimulado
por netos, familiares, comprou um
caderno escolar somente para este fim , estando com relatos crescentes,
intercalando frases, conceitos, expressões, tanto em italiano quanto em
português, esforçando-se muito para se expressar, em função de confessada
limitação do seu pouco estudo.
-Não se preocupe, senhor Aprile, importante é anotar o que
for possível, o que vier da memória; alguém vai ler, traduzir, transmitir sua
história, disse-lhe. Retomou , então, a fala o senhor Aprile para dizer que tem uma neta
jornalista, Karine Yervese Aprile , que trabalha no Jornal à Tarde, afirmação
que me fez certo de que o registro, correção e publicação do seu livro serão
tarefas menos sofridas para ele, já que neta é uma das suas incentivadoras.
Fez questão de pontuar: "a parte que quero contar da
minha vida , são as minhas conclusões, teses, convicções, meus conhecimentos da
história que construí cozinhando, aprimorando, degustando, o Filé à
Parmegiana".
Deduzi , naquele encontro , sem esforço, ter o senhor Aprile
muito contribuído para apuração do cozimento, enfeite e sabor daquele Filé,
como hoje o conhecemos na Bahia, a partir do primeiro restaurante, o Abruzzi,
instalado no Entrocamento de Jaguaquara, em 1960,pioneiro em comida italiana no
interior baiano. Dali , diz seu Aprile, resultaram os mais deliciosos filés à
Parmegiana da Bahia, consagrados por restaurantes como Volare e Bella Napoli,
em Salvador, e pelo Biacamano, que funciona em Jaguaquara, todos eles, originários da Famlia Aprile, das
colônias italianas de Itiruçu e Jaguaquara.
Pretendia contar para mim apenas a parte da sua história em
Jaguaquara, relativa ao delicioso filé . Mas, para minha sorte, terminou
emendando, melhorando, enriquecendo-a para tecer comentários sobre Mussolini;
Clero Italiano da sua época; imigração; festa do trigo em Jaguaquara; seu
talento para variados ofícios, principalmente para o comércio, mecânica;
cozinha e ciclismo, este interrompido pela sua vinda para o Brasil.
Quase não almocei, interessado nas histórias e estórias ali
escutadas. O medo de Ró e Vitor não deixarem nem um pouquinho do filé para mim, o que por
pouco não aconteceu, dirigi-me para a mesa deles, arrastando o senhor Aprile
que, generosamente, continuou a sua fala
, a sua história de vida,
pontuada por algumas tristezas, como a vivenciada pelo falecimento da sua
esposa , vitimada por câncer, fato que o abateu profundamente.
Voltarei La, para mais ouvir e comer.
Quem passar por Feira de Santana, não pode deixar de
conhecer o Restaurante LA CAMPANA. Pelo menos aqueles que gostam de boa comida,
temperada com histórias, como as contadas por aquele simpático senhor.
Se tiver mais sorte ainda do que tive hoje , poderá ainda
ouvi-lo tocando sanfona com a qual, na companhia de seu contemporâneo de
colônia Giuseppe Petaccia, realizou muitos festejos sob o efeito bendito dos
vinhos caseiros, fabricados ali mesmo, na colônia italiana de Jaguaquara. Ao
lembrar do amigo, já falecido, seus olhos brilharam, revelando muitas saudades.
E cantou, baixinho, imitando a voz de tenor do amigo, "O Sole Mio",
canção que embalava as festas, lembranças, saudades das suas vivências na terra
natal italiana e juventude em Jaguaquara.
Não nos contou tudo o senhor Aprile. Muito menos o faço
aqui. Enquanto isto, seguirei fazendo
minhas leituras, pedaladas, contando estas coisas para meus amigos; e o seu
Aprile , em Feira, oferecendo o seu incomparável filé e pondo no papel as suas
histórias que seu futuro livro conduzirá para mais gente, por mais tempo e para
bem mais longe: missões próprias deste majestoso condutor de saber.
E tudo bem simples, gostoso, igual à sua cantina, filé,
bicicletas, livros e sonhos. Estes, sempre infinitos.
=============https://www.facebook.com/
LA CAMPANA: Rua São Domingos, 86, Capuchinhos, Feira de
Santana.
=============
-Aproveitem a lembrança, copiem,colem , liguem o som ,
fechem os olhos e entreguem suas almas ao belo mundo das harmonias sonoras, de
"O Sole Mio", no video:
http://www.youtube.com/watch?v=sjqHA8x1rOk
Postado por Amigos da Tocaàs 19:51
1 comentários:
LUIZ SANGIOVANNI disse...
Belo texto. Ontem almocei no La Capana e o Sr. Silvano
estava lá, como na minha primeira vez, há mais de trinta anos.
O bom é que os seus descendentes optaram por servir comida à
quilo no almoço, o que nos permite deliciar tantas variedades.
Vida longa ao Sr. Silvano!!!
luiz.sangiovanni@gmail.com
16 de março de 2011 22:30
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